De repente me ocorreu um pensamento que é antigo em mim, e que estava inativado: é muita arrogância querer dizer às pessoas qual é o melhor jeito pra elas viverem. Por mais que eu ache tudo muito estúpido, não tenho direito algum de me meter. Posso apenas cuidar dos meus assuntos. Posso, quando muito, me mostrar ao máximo, para descobrir quem, neste mundo, vai andar comigo.
Vou contar aqui de uma idéia que me alegrou por alguns dias, mas que passei a achar exatamente arrogante demais, e que é melhor eu respeitar os mais velhos. Seria assim, em forma de intervenção urbana:
O Tríptico fica na rua, junto dele, uma rodinha de cadeiras com um ator caracterizado de alguma maneira exótica. Uma mesinha no meio com diferentes tipos de chá e algum tipo de cartaz que convide as pessoas a se sentarem, algo como "Sente cá e tome um chá!". Uma das telas mostra o que está de fato acontecendo lá (ou o que já aconteceu em outros lugares onde a intervenção já foi feita). As outras telas mostram imagem que sugerem temas da vida, como O Trabalho, O Amor, O Ócio, A Curiosidade, etc... O ator teria a função de fazer as pessoas conversarem sobre estes temas. Assim, provocando nessas pessoas a reflexão sobre certos temas, a intervenção espera ter contribuido positivamente para o crescimento de cada ser-humano.
Descartei essa idéia por dois motivos:
1- Não me arrogo a sabedoria pra dizer no que as pessoas têm e não têm que pensar.
2- O papel do vídeo e da tecnologia como um todo, neste trabalho, é pequeno...
... É pequeno porque eu queria ir na contramão da presença ostensiva das tecnologias de imagem e comunicação na vida cotidiana. Agora me ocorre uma idéia diferente: contestar esta presença por uma extrapolação ao absurdo. Fazer a crítica do vídeo usando o vídeo. Um anti-vídeo, um contra-vídeo, übber-vídeo...
A característica filosófica marcante do vídeo, e da contemporaneidade, é a liquidez.
E o meu dever de casa, então, é estudar o vídeo. Começo com, claro, Debray, e vou passar por Dubbois. Sugestões?
2009/05/08
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A crítica genética é fascinante, Cecília Sales, leia algo.
ResponderExcluirAqui no PPGAC várias Teses e Dissertações nessa linha, a de Antrifo Sanches, por exemplo. Ele criou três solos, convidando três diretores de teatro/coreógrafos para dirigi-lo, montou os trabalhos e depois, à luz da CG, analisou o processo. Foi muito interessante, eu gosto dessa linha, exatamente porque traz de volta a importância do processo, na sua "robustez".
Acho ótimo estar na contramão dessa loucura toda, de ter-que-ser-mais-rápido-e-mais-tecno. Confesso que ando cansada dessas coisas também. Quero a obra na sua forma simples e primária, sempre. Sobre isso, leia o texto (bárbaro) de Susan Sontag, Contre l´Interprétation. Trechos brilhantes sobre a força que a obra deve ter apenas na sua forma primeira.
Eu sempre dizia (e digo ainda) que sou artista, mas não sou "banda voou". Antes tínhamos a pecha de sermos muito doidos, seguindo o pensamento que nos folclorizava. Agora, tem-se quase a obrigação de ser muito original, muito tecno, muito cyber e coisas que tais. Eu não acho que deva ser assim. O importante é que faça-se a coisa certa, a coisa que funcione, a coisa que atinja lá o outro. E que o outro saiba contemplar sim. Exatamente como você propõe.
Sejamos clássicos, nesse sentido.
Tenho tido grandes delírios ultimamente, com leituras, com cinema, com poesia, com dança (outro dia tive um momento único assistindo o Balé de São Paulo, uma coreografia de Nacho Duato "GNAWA", aparentemente convencional, mas de um vigor fascinante). Da mesma forma me emociono com as peraltices ultra contemporâneas, mas essas têm que ser MUITO boas, para me toamr.
No seu livro Os Problemas da Estética, Pareyson discute, dentre outras coisas, qual a lei que deve direcionar a criação artística. Na sua escrita dialética que sempre opõe duas possibilidades, ele coloca que “... a lei universal da arte é que na arte não há outra lei senão a da regra individual. Isto quer dizer que a obra é lei daquela mesma atividade de que é produto; que ela governa e rege aquelas mesmas operações das quais resultará; em suma que a única lei da arte é o critério do êxito... em outras palavras, a arte triunfa porque triunfa; triunfa porque resulta tal como ela própria queria ser, porque foi feita do único modo como se deixava fazer, porque realiza aquela especial adequação de si para consigo que caracteriza o puro êxito: contingente na sua existência, mas necessária na sua legalidade; desejada, na sua realidade, pelo autor, mas, na sua interna coerência, por si mesma."
Sempre que apresento este texto aos meus alunos da Crítica, a discussão é polêmica, muitas questões surgem, sobretudo esta: "mas enfim, como definir êxito?"
Prefiro a discussão, rica, às respostas. Prefiro as possibilidades levantadas, às fórmulas. Estas não podem servir à imensa produção artística que nos rodeia.
Ontem assisti o filme O Último Adeus (Last Orders) de Fred Schepisi, 2001, ganhador do National Board of Review, Best Group Performance. Baseado no romance de Graham Swift, premiado escritor. Um filme muito simples, sutil, como são os filmes ingleses, muito bem dirigido e, sobretudo, ancordo na interpretação de atores magníficos como Michael Caine, Helen Mirren, Bob Hoskins e outros.
O enredo é, aparentemente, comum: quatro amigos se reúnem para atender ao último pedido de um outro que morreu e quer suas cinzas jogadas ao mar. Ao longo desse passeio, nos é dado a conhecer cada personagem, a história de suas vidas, conquistas, perdas. Poderia resvalar para um sentimentalismo piegas e uma sucessão de clichês. Mas não vai por este caminho. O filme é denso, mas quase cru e, eu diria, mesmo leve. Não faz statements of belief, nem coloca posições políticas diante da morte, apenas segue um caminho simples e singelo. Não impõe, ao contrário, deixa aberto o caminho das possibilidades, um dos méritos da sua proposta. Vale a pena ser visto, senão pela direção e construção serena, mas pela interpretação segura e right to the point.
Atinge o critério de êxito com perfeição, sem alarde. Esse filme é o que quer ser, foi feito do único modo como deveria ser feito e por isso possui coerência.
Você também é um filósofo. Continue pensando.